Entro nestas quatro paredes e confesso que a melancolia me assola
Falta-lhes alma
Não uma alma patente de lugar
Mas uma alma de gente
Gente que por aqui passou e já há muito não vê este lugar
De quando as cores eram menos brilhantes, mais sombrias
Faltam os sons, os risos despropositados e a música, ai música…
Aquela música que começava bem lá em cima
Ainda em frente à capela
Que era trauteada pelas ruas abaixo sem dó nem piedade
Podiam acordar as pombas nos ninhos
E dentro de casa os vizinhos
E nos levávamos a nossa música pela rua direita a baixo
Como que ébrios pelos aromas da nossa melodia…
Passávamos o banco de Portugal,
A música atroava as ruas como trovões sem reino
O polícia franzia o sobrolho e ameaçava o desacato
Mas nós prosseguíamos
E trazíamos a música a estas paredes
E elas sorriam para nós e acolhiam a nossa canção vagabunda
Como um pai acolhe o seu filho em casa
Pois não se chamasse ele Amadeus
E não trouxéramos nós tantas vezes o seu Requiem
Com o Dies Irae trovejado aos céus vazios
O magoado Lacrimosa
O crente Kyrie, e fomos sempre recebidos com um sorriso
O sorriso de quem cuida de crianças traquinas…
E agora? Agora as paredes são as mesmas,
Pintadas de branco novo e vermelho
Foram-se as cadeiras duras
Vieram sofás, os sorrisos são os mesmos..
E Amadeus olha-me expectante a espera da sua mestra melodia
E eu, olho de volta, e não sei o que dizer
A melodia perdeu-se as pedras da calçada porque todos a esqueceram
A rua direita dorme, o banco fechou,
E até já nem o polícia já vigia aquelas paragens …

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